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Rebeldes ainda combatem, mas já prometem eleições

Com as conquistas em Trípoli e o paradeiro de Muamar Kadafi ainda desconhecido, os rebeldes se aproximavam nesta quarta-feira de Sirta, a cidade natal do ditador e um dos últimos redutos remanescentes de partidários do governo. Com cada vez maior apoio da comunidade internacional, as forças opositoras ganharam também nas últimas horas com a deserção do general Khalifah Mohammed Ali, segundo na hierarquia da inteligência do regime, e do ministro da Saúde, Mohammed Hijazi. - Estou a serviço da nação e peço a generais e soldados que são filhos da Líbia que se unam à revolução de 17 de fevereiro - disse o general, em entrevista à rede al-Arabiya.
Conforme avançam a Sirta, os rebeldes temem um novo banho de sangue. Segundo eles, os partidários de Kadafi na cidade, que fica cerca de 450 quilômetros a leste de Trípoli, foram instruídos a lutar até a morte.
- Kadafi enviou uma mensagem dizendo a eles para lutar até a morte - afirmou Hassan Droy, representante do Conselho Nacional de Transição, órgão dos rebeldes. - Um problema é que as pessoas ali estão totalmente desconectadas. Elas não têm telefones nem eletricidade há três dias e não sabem o que está acontecendo.
Para evitar mais violência, ele disse que os rebeldes tentariam negociar assim que chegassem à cidade, mas iriam lutar se necessário.
 
Recompensa pelo ditador
 Os rebeldes que ainda enfrentam ataques das forças de Muamar Kadafi em Trípoli ofereceram, nesta quarta-feira, anistia a quem capturar ou matar o ditador, que permanece escondido. Enquanto a caçada continua, Saadi, um dos filhos do ditador, estaria tentando um cessar-fogo em contato com os Estados Unidos e os rebeldes, que já planejam até eleições.
Um repórter da rede americana CNN diz ter trocado emails com Saadi, que teria mostrado a intenção de evitar mais violência no país. Ele garante que as mensagens são autênticas e que, nelas, o filho de Kadafi afirma "ter autoridade" para negociar.
Apesar disso, Kadafi não dá sinais de que pretende dialogar. Em mensagens de áudio veiculadas por rádio e TV após perder o controle de sua fortaleza, o ditador prometeu "martírio ou vitória" e pediu que os líbios limpem os "traidores" da capital , onde ele estaria.
De acordo com o chefe do Conselho Nacional de Transição (CNT), uma recompensa de US$ 1,3 milhão foi oferecida por um empresário de Benghazi pela captura do ditador.
- O Conselho Nacional de Transição anuncia a qualquer membro de seu círculo próximo que matar Kadafi ou capturá-lo que a sociedade dará anistia ou perdão para qualquer crime que ele tenha cometido - disse o chefe do conselho rebelde, Mustafa Abdel Jalil, em entrevista coletiva em Benghazi.
Segundo Jalil, a Líbia terá eleições livres dentro de oito meses. Ele disse ainda que Kadafi será julgado na Líbia, e não em cortes internacionais.
- Queremos um governo democrático e uma Cosntituição justa. E, acima de tudo, não queremos mais ser um país isolado - afirmou.
O quartel-general de Bab al-Zaziya, tomado na terça-feira pelos rebeldes, virou palco de confrontos nesta manhã entre atiradores do regime e combatentes opositores. A fortaleza que abrigava a residência de Kadafi foi atacada com foguetes, assim como o Aeroporto Internacional da capital líbia, que também estava sob controle rebelde. Rebeldes dizem dominar 95% do território líbio.
Segundo a rede americana CNN, tropas britânicas estão ajudando os rebeldes a se organizar melhor para conduzir as operações. Algumas dessas forças, explica uma fonte da Otan à emissora, acompanham unidades rebeldes no avanço rumo a Trípoli.
As forças em terra também teriam dado informação para aviões da Otan bombardearem alvos específicos em Trípoli, que foi em grande parte tomada pelos rebeldes também com ajuda da aliança. Não está claro se as tropas internacionais se envolveram diretamente em combates - o que violaria os termos da operação ocidental no país.
 
Para chanceler líbio, domínio de Kadafi acabou
 Segundo a emissora britânica Channel 4, o ministro das Relações Exteriores líbio, Abdul Ati al-Obeidi, afirmou nesta quarta que o domínio de Kadafi acabou. Falando de sua casa em Trípoli, Obeidi disse que não estava em contato com outros membros do regime. Ele disse ainda que o líder líbio exauriu todas as suas opções.
Mas batalha entre rebeldes e forças de Kadafi continua sendo travada nas ruas de Trípoli, confirmando a avaliação feita nesta quarta-feira por uma autoridade da Otan para quem a "guerra ainda não acabou, embora esteja perto do fim". A aliança voltou a bombardear a capital, atingida por pelo menos duas explosões.
Confrontos podiam ser vistos em áreas no Sul e no Centro da cidade. Em frente ao Hotel Rixos, onde se concentram os jornalistas estrangeiros, também havia enfrentamentos que chegaram a deixar os correspondentes "presos" dentro do prédio. No fim da manhã (horário de Brasília), eles conseguiram deixar o hotel. Mais tarde, quatro jornalistas italianos foram sequestrados a caminho da capital.
O complexo residencial de Kadafi foi atingido por ao menos sete foguetes em um intervalo de 40 minutos. Desafiando os rebeldes que tomaram a fortaleza, mas não o encontraram dentro do QG, Kadafi disse que tem saído às ruas da capital.
"Todos os líbios devem estar presentes em Trípoli. Jovens, homens e mulheres tribais devem varrer Trípoli e limpá-la dos traidores", afirmou. "Tenho saído um pouco em Trípoli discretamente, sem ser visto, e não senti que a cidade está em perigo", acrescentou.
A mensagem em um áudio veiculado por uma rádio e retransmitido pela TV Al-Rai, do Kuwait, foi a segunda mensagem do ditador após a queda de sua fortaleza.
Seu porta-voz, Musa Ibrahim, também deu declarações em tom desafiador, garantindo que as tropas do regime estão prontas para lutar "não apenas por meses, mas por anos". O porta-voz do governo garantiu que os líderes rebeldes não terão paz se realmente forem para Trípoli.
 
Porta-voz do governo diz que 6.500 voluntários se apresentaram na capital
 Segundo Ibrahim, 6.500 voluntários se apresentaram na capital nas últimas seis horas e 80% da cidade ainda estaria sob controle de Kadafi. O porta-voz também atacou os rebeldes, ameaçando transformar o país "num vulcão em ebulição e incendiar os pés dos invasores".
Apesar da resistência, os rebeldes estão confiantes de que vão derrubar o ditador que está há 42 anos no poder e afirmam ter o controle de cerca de 90% da capital. Até o momento, estão os mantidos os planos do CNT de transferir a sede do governo rebelde de Benghazi para Trípoli ainda nesta quarta-feira.
Embora nem o ditador nem sua família tenham sido encontrados e muitos achem prematuro anunciar sua derrota, o conselho quer evitar um vácuo de poder na capital e mostrar que o antigo regime já não responde pelo país.
Conforme as forças rebeldes avançam, o CNT ganha mais apoio, e a transferência do QG para a capital pode ajudar nisso. Bahrein, Iraque, Malta, Marrocos, Nigéria e Noruega engrossaram o grupo de mais de 30 países - que não inclui o Brasil - que reconhecem o conselho como representante legítimo do povo líbio.
Segundo Mustafa Abdel Jalil, chefe do CNT, 400 pessoas foram mortas e outras 2 mil ficaram feridas nos últimos três dias em Trípoli. Embora não seja possível confirmar os números, um médico em uma clínica da capital disse nesta quarta que o local está repleto de feridos e mais de 300 pessoas já foram atendidas desde o início da semana, inclusive crianças e pacientes que precisaram de amputações.

Por O Globo