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Os últimos dias de Trípoli

Por cima dos ombros do motorista era possível avistar o velocímetro do Mercedes branco S500. O ponteiro, tilitando à direita, já marcava 250 quilômetros por hora. Eram 15h10 do sábado, 20 de agosto, em Trípoli. O luxuoso veículo, com a insígnia da Grande Jamairia Socialista Árabe do Povo Líbio em suas placas, tentava chegar ao aeroporto internacional da cidade. A capital da Líbia estava prestes a cair nas mãos dos rebeldes, no final dos 42 anos da brutal ditadura de Muammar Khadafi. O Mercedes, blindado com especificações militares para atender Khadafi e seus assessores mais próximos, era um dos poucos veículos oficiais que ainda tinham combustível e coragempara rodar na cidade. Em meio a bombas que caíam como confetes, o carro seguia em disparada para garantir a saída do país de oficiais líbios ávidos de escapar da batalha que tomaria Trípoli de assalto. “Estamos ferrados”, disse o empresário líbio Tamer Bachir, segurando a alça da janela, seus olhos colados na estrada à frente.“Não vai dar tempo. Eles vão me matar.”
Minha chegada a Trípoli ocorrera 11 dias antes, após uma longa negociação com o regime de Khadafi para que eu tivesse o direito de circular livremente pela capital líbia, ainda pressionada pelos rebeldes e sob constante bombardeio de aviões da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Os demais jornalistas estrangeiros em Trípoli eram obrigados a se hospedar no hotel Rixos, próximo ao complexo de Bab al-Zizia, o quartel-general de Khadafi. Lá, a vigilância era ostensiva – e era praticamente proibido sair. Nos últimos meses da guerra, a rotina dos jornalistas resumiu-se a assistir a entrevistas coletivas de autoridades líbias e a verificar, esporadicamente, danos causados aos civis pelos bombardeios. Com a chegada dos rebeldes à cidade, no entanto, após uma semana e meia com acesso direto ao moribundo regime de Muammar Khadafi, era imperativo – por razões de segurança – sair do país.
Apenas 20 minutos antes da partida do avião, fretado para o uso de representantes da Organização das Nações Unidas (ONU), estávamos ainda a 15 quilômetros do aeroporto. O empresário Tamer Bachir tinha dois bons motivos para estar em relativo desespero, com medo de não conseguir partir. Negro numa cidade com predominância de morenos, ele temia ser confundido pelos rebeldes com um dos mercenários de outras regiões da África recrutados por Khadafi. Além disso, Tamer é irmão de Saleh Bachir, então chefe de gabinete e o mais influente assessor do coronel ditador. Num de seus últimos atos no poder, Bachir providenciara o carro e os contatos na companhia aérea para retirar os diplomatas da ONU da Líbia. Tamer sentava-se a meu lado, no banco de trás do Mercedes. À frente, o advogado francês Marcel Ceccaldi, conselheiro especial de Khadafi, mantinha-se calado. Ceccaldi era o principal estrategista jurídico do ditador e fora encarregado de sua defesa no Tribunal Penal Internacional – Khadafi e Saif al-Islam, um de seus filhos, são acusados de crimes contra a humanidade. Em 11 dias, era a primeira vez que eu via Ceccaldi em silêncio e sem um cigarro à mão. “Perigoso isso aqui, não?”, disse ele, finalmente, enquanto fitava os destroços de um prédio residencial na parte sul de Trípoli. Nasser, o motorista do governo que nos levava ao aeroporto, acelerava e buzinava constantemente. Súbito, disse algo em árabe, pegou um beco e estacionou o carro. Tamer explicou o problema:
– Acabou a gasolina.

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Os assessores próximos a Khadafi viram com bons olhos a presença de um jornalista brasileiro em Trípoli. Khadafi sempre gostou do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a atitude ambígua do Itamaraty em relação à guerra na Líbia agradava ao regime. “Você pode vir, desde que conte a verdade”, repetiam. Para Khadafi, a verdade era que ele fora vítima de uma conspiração dos rebeldes, títeres de interesses americanos, franceses e britânicos, todos em busca do petróleo e do gás da Líbia. ÉPOCA obteve liberdade de trânsito na cidade. A hospedagem foi no hotel Corinthia, no centro de Trípoli, longe do Rixos, sem seguranças do regime e numa região ainda leal a Khadafi. O governo não gostava de jornalistas estrangeiros e estava cada vez mais irritado com a cobertura da imprensa internacional sobre a guerra, sentimento compartilhado por parte da população. Acusavam redes de televisão, sobretudo a catariana al-Jazeera e a britânica BBC, de “espalhar mentiras” sobre atrocidades cometidas pelas milícias de Khadafi, a fim de derrubar o regime. No começo do conflito, há seis meses, jornalistas que tentaram entrar sem visto na Líbia foram presos. Dois jornalistas americanos foram assassinados.
A entrada na Líbia deu-se por terra, em um transporte providenciado pelo governo líbio a partir da Tunísia. Àquela altura, já me acostumara com os segredos e mistérios dos líbios. Eles não gostam de responder objetivamente a nenhuma pergunta e passam a confiar no interlocutor apenas à medida que este demonstra paciência e disciplina para respeitar os rituais de uma comunicação pautada por longos períodos de espera e silêncio. Os líbios detestam a objetividade e a pressa da cultura ocidental. Detestam ainda mais sentir-se acossados por ela.
A burocracia exigiu uma ida ao consulado líbio em Sfax, a 235 quilômetros de Túnis, onde homens, mulheres e idosos gritavam, alguns com passaportes líbios nas mãos, em busca de notícias sobre familiares que ficaram para trás. Ao entregar minha autorização e meu passaporte, fui imediatamente apresentado à corrupção do regime de Khadafi. “São US$ 200”, disse em francês um dos funcionários. “Ou você paga ou não entra.” Após um telefonema a um dos contatos no governo líbio, o “mal-entendido” foi desfeito. O mesmo funcionário devolveu o passaporte já com o visto. A exigência da caixinha foi esquecida.
Na quarta-feira, 10 de agosto, cheguei a Ras Ajdir, na fronteira entre a Tunísia e a Líbia. Na estrada para a Líbia, ladeada pela areia do deserto, árvores secas e ocasionais vilas de berberes, surgiram os primeiros sinais da guerra: campos de refugiados líbios, onde centenas de tendas verdes serviam de moradia a famílias que escaparam do conflito. Os campos foram montados pelo governo do Catar e pelo dos Emirados Árabes. A maioria dos hóspedes escondia-se do sol sob as tendas, observando sentados o vaivém dos carros e caminhões entre Tunísia e Líbia. O motorista do táxi recusou-se a seguir até o posto da fronteira. “É muito perigoso”, disse, antes de me fazer desembarcar 2 quilômetros antes. Tive de mostrar meu visto a cinco soldados líbios. Eles se entreolhavam, checavam o passaporte, gritavam ora comigo, ora uns com os outros. Depois do que pareceu ser um debate sobre a validade do visto, encaminharam-me a uma lanchonete abandonada, já no lado líbio da fronteira. Um deles disse, confiscando meu passaporte: “Espere aqui”. Perguntei por quanto tempo. Ele deu de ombros. Não havia sinal em meu celular. Observei os carros e as pessoas que se amontoavam na fronteira tentando sair da Líbia. Eu era o único ocidental.

Por Época