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Estudantes reclamam de confusão em prova amarela do Enem

Estudantes que participaram do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste sábado (6), em especial aqueles que fizeram a prova amarela, reclamam de outros problemas além do erro na impressão na folha de respostas, que o Ministério da Educação já admitiu. A queixa mais comum é a de que havia questões diferentes com a mesma numeração, além de questões iguais, com numeração diferente.
A prova já havia acabado há mais de duas horas, mas a estudante Marina Medeiros, de 18 anos, de Belo Horizonte, ainda estava abalada e chorando. O problema começou, segundo ela, já no início do exame, que atrasou 40 minutos no local em que ela estava. A estudante fez o exame na Faculdade Pitágoras, no centro de Belo Horizonte.
“Peguei o caderno amarelo, o caderno 2, e, quando abri, veio com numeração errada. As questões vieram numeradas erradas. Fiz a prova amarela, mas o gabarito tinha questões da prova amarela e oito páginas da prova branca, além de 11 questões que se repetiram”, relata. Marina diz que tentou renumerar a prova inteira para poder marcar corretamente no gabarito, mas a escassez do tempo, a tensão do momento e a confusão em si a impediram de ter sucesso.
“Fiquei muito chateada, estudei o ano inteiro”, reclama. Marina afirma que, se for prejudicada, pensa em procurar o Ministério Público Federal e, com seu colégio, entrar na Justiça. “Foi uma bagunça.”
A jovem, que tenta entrar na faculdade de administração, não decidiu ainda se irá fazer a prova de domingo (7). “Não sei se vou amanhã, ainda não resolvi. Se eu for, com certeza meu psicológico vai estar completamente abalado.”

Paraná
A reclamação de Laura Fernandes Chagas, de 17 anos, que fez a prova em Curitiba, é semelhante à de Marina. “A minha prova teve vários problemas. Teve questões faltando, questões repetidas, tinha duas questões 23, uma diferente da outra, havia duas questões iguais com número diferente, várias coisas”, conta.
Segundo a jovem, uma pessoa esteve na sala dizendo que os alunos deveriam descrever todos os problemas encontrados e que seria dado tempo adicional. “Faltando 15 minutos para acabar o horário original, disseram que não teria tempo extra pra ninguém”, diz.
“Isso não é só uma prova, vai mudar a minha vida. Disso depende eu entrar na federal ou não. É um absurdo”, reclama a jovem. Laura disse que pretende fazer a prova do domingo, apesar da frustração. “A vontade que dá é de abandonar, porque é uma palhaçada.”
Ela diz que, numa prova com 90 questões, o primeiro erro que encontrou foi logo na questão de número 20. “Já comecei a ficar nervosa. Você fica desconcentrada. Atrapalhou muito meu desempenho. É uma coisa revoltante”, desabafa.
“Não sei se vale a pena persistir neste tema. Num ano, a prova é fraudada, no ano seguinte é essa confusão. E o que eles gastam de dinheiro fazendo essa prova... Você fica meio sem saber o que esperar”, conclui.

Santa Catarina
Tentando uma vaga no curso de design de produto, Giovanna Queiroz, de 18 anos, de Joinville (SC), repete as queixas das outras estudantes. “Foram dois problemas que me confundiram bastante na hora de realizar a prova. Havia questões repetidas, a mesma questão mais de uma vez, e ocorreu o caso de duas questões diferentes terem o mesmo número”, fala. “Na hora de preencher o gabarito, eu até tentei pegar a prova e enumerar na ordem, mas preenchi um monte de questão errada.”
Quando terminou a prova, Giovanna diz que encontrou muita gente reclamando da prova amarela. “Todo mundo está com medo de ser prejudicado. Teve o erro do gabarito. A gente já entra nervoso na prova, é uma prova cansativa. Você sabe que se errar, isso vai te prejudicar”, fala.
Segundo ela, quando percebeu que sua prova estava errada, ela ficou nervosa e começou a chorar. “Porque eu sabia que isso ia interferir no meu resultado.” A candidata diz que enviou um e-mail para o MEC e espera uma resposta. “Meus pais ficaram muito indignados e vão tentar entrar na Justiça para consertar.”
Giovanna diz que, no domingo, vai fazer a prova como se fosse um simulado, só para treino. “Acho que a prova de hoje já estragou [o desempenho].”

Minas Gerais
Em Belo Horizonte, muitos estudantes tiveram problemas com as provas do Enem, além de Marina Medeiros. O candidato Alessandro Russo diz que, ao perceber que os subtítulos da folha da respostas estavam invertidos, inicialmente foi instruído pelo fiscal a marcar as questões com o número do gabarito, ou seja, marcar a questão 1 da prova na 46 do gabarito. Quando havia feito seis questões, pediram para parar de marcar.
“Mais tarde, eles vieram dar a notícia que era para marcar de acordo com o número certo do gabarito, ou seja, questão 1 da prova no 1 do gabarito. Me fizeram perder seis questões. Inclusive eles disseram assim: ‘vocês vão perder essas questões que já marcaram e tem que entrar com recurso depois’”, relata.
Além disso, o estudante diz que no seu caderno também havia questões da prova amarela misturadas à da branca, e, por causa disso, havia questões repetidas e faltando. “Do número 29 passou para o 32”. Ele começou a fazer a prova com este caderno e só depois recebeu outro, que estava certo. “Voltei pra casa com dois cadernos. Isso ai desestabiliza.”
Ana Luisa Nascimento diz que recebeu um caderno amarelo com questões faltando e outras repetidas, onde havia questões misturadas com o caderno branco. Segundo ela, a instrução que recebeu dos monitores foi: “Façam a prova normalmente, as questões que não existem não marquem nada, as duplicadas escolham uma”.

Pernambuco
Amanda Vaz, de 18 anos, fez a prova rosa, que, aparentemente, não tinha problemas no gabarito, mas se sentiu indiretamente prejudicada pelos problemas da prova amarela. “Teve aquele erro do gabarito que foi informado, mas quem recebeu a prova amarela reparou que faltavam questões, havia questões repetidas e não tinha como tentar arrumar, porque a prova estava toda errada”, comenta. “Foi um transtorno, teve muito tumulto, todo mundo reclamando.”
Com isso, segundo ela, mesmo quem estava com a prova certa não conseguia se concentrar. “Se algumas pessoas foram prejudicadas, o certo é a prova ser cancelada”, diz. Amanda, que pretende fazer faculdade de engenharia, realizou a prova do Enem no Recife.
Ana Paula Jardim, de 26 anos, não depende do resultado do Enem para ingressar na faculdade. Ela já é pedagoga e, atualmente, cursa direito, mas, mesmo assim, inscreveu-se no exame “para ver como está o nível das questões”, diz.
Ela reporta os mesmos problemas explicados pelo outros candidatos. “Após uma hora de prova a supervisora do prédio Escola Geraldo Teixeira da Costa, na cidade de Santa Luzia (MG), trocou as provas dos candidatos por cadernos que não apresentaram erros de impressão. Isso ocasionou muita conversa e discussão durante a realização da prova”, fala.
Na sala em que Ana Paula estava, três pessoas precisaram trocar a prova amarela. “No envelope da minha sala, não tinha a prova amarela correta e ela teve que ir buscar em outra sala”, relata. “Teve muita discussão, aluno conversando, aplicador conversando, a mulher entrava e saía da sala procurando resposta.” Para ela, só o erro de impressão no gabarito já era motivo para invalidar a prova.

Apuração
O G1 tentou, sem sucesso, entrar com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para comentar as reclamações citadas na reportagem.
Mais cedo, a assessoria do Ministério da Educação confirmou ao G1 que havia cadernos de questões amarelos com problemas de impressão. Segundo o ministério, os fiscais foram orientados a trocar as provas que tinham erros.
O presidente do Inep, Joaquim José Soares Neto, disse, em entrevista, que a possibilidade de ter havido outros erros ainda precisa ser apurada.
Por G1